Mas não se trata de um silêncio absoluto, daqueles em que não se ouve som algum. O meu silêncio é só o silêncio de quem não diz o que deve ser dito. Decidi calar-me, enfim.
Não vou mais dizer às pessoas como sofro, como me angustio, como me sinto um nada, ninguém, insignificante, porque não suporto mais ouvir que isso é mentira e que estou enganada. Cansei de ouvir todas as soluções que eu por mim mesma não consigo visualizar. Resolvi assumir aquilo que sempre tive de certo, que é esse sentimento vazio que sinto.
As pessoas à minha volta simplesmente não entendem que há uma diferença abissal entre pensar e sentir. Uma coisa racionalmente viável e de fácil compreensão não é nada disso quando experimentada de forma diferente, ou seja, uma coisa sou eu saber disso, disso e daquilo, mas outra coisa completamente diferente é a maneira como me sinto, totalmente contrária àquilo que sei. E quem explica? O que sei é que venho, durante todo esse tempo, vivendo de acordo com o que sinto. Se não faço nada, se não quero nada, se não almejo nada, é porque esta é a forma como me sinto.
Outro dia perguntei ao meu médico o que acontecia às pessoas quando os antidepressivos não existiam: “- Doutor, o que acontecia às pessoas antes de existirem drogas como estas que venho tomando? Elas se matavam?” Ele deu uma risadinha e me disse que nem todas se matavam efetivamente, mas que se matavam de outras formas, levando uma vida que não era muito diferente da própria morte. Fiquei cá com os meus botões pensando o que exatamente ele quis dizer... Será que ele acha mesmo que manter as pessoas dopadas, cheias de serotonina sintética, forçando que elas saiam da cama todos os dias e que acordem com a certeza de que terão um dia significativo é diferente de prolongar a vida às custas da morte, quer dizer, não é o mesmo que mantê-las mortas-vivas? Sim, porque afinal de contas, que vida é essa? Eu particularmente não tenho nada para reclamar desta vida assim não. De fato acordo todos os dias com uma listinha de coisas para fazer e, na maioria das vezes, não deixo nada pra trás. Leio, ouço música, vejo TV, bordo, faço caminhada, ginástica duas horas por dia, namoro, falo ao telefone, perco horas aqui na frente dessa desgraça de computador inútil, penso na vida, cuido do Sig... As horas passam e quando me dou conta o dia acabou, uma semana se passou e lá se vai mais um mês. Estou viva, não estou?
Não dou mais linha para os meus pensamentos ruins. Eles continuam aqui, mas os ignoro. Sei que o tempo está passando e que meu dinheiro vai chegando ao fim, mas e daí? Nem isto consegue tirar o efeito do meu remédio e nem diminuir minha decisão de nada mais falar.
O que eu tenho claro para mim é que, se eu vivesse completamente sozinha neste mundo, tudo seria mais fácil. Sem conhecidos, sem amizades, sem parentes, sem pessoas que me amam... Seria muito mais fácil entregar-me ao nada, não fazer nada e não sentir que isso incomoda ou preocupa aos outros. Detesto ser alvo da preocupação alheia! Não que eu não me importe, mas eu apenas gostaria que não se importassem comigo. Se assim fosse, eu seria verdadeiramente livre para fazer o que quisesse – ou para não fazer nada, como é o caso. Afinal de contas, qual é o problema de eu ter incorporado o meu fracasso e ter decidido não ser e não fazer mais nada?
Gostaria de gritar: “- Não me salvem!!! Eu estou bem assim!” Mas como fazer com que acreditem e me deixem em paz?
