Você que está acostumado(a) a ler as coisas que escrevo aqui neste espaço provavelmente pensou quando leu o título desse post: “Deus, lá vem essa infeliz falar das lamúrias da vida dela de novo! Que saco”. Sinto informar que se você pensou isso você está absolutamente correto(a)! Vou me lamuriar muito e vou sim falar de saco. Mas informo-lhe também que, desta vez, tenho certeza que as lamúrias que vou compartilhar aqui podem também ser lamúrias suas, da sua mãe, da sua tia, ou de qualquer pessoa que tem um lar e cuida dele.
Sim, eu estou falando de lixo mesmo, esta porcariada composta por um emaranhado de restos de coisas que consumimos ou que não têm utilidade: cascas de banana, restos de comida, cocô de gato, cachorro ou seja lá o bicho que você tem, potes vazios de iogurte, papéis de bala, absorventes sujos contendo o abortinho natural de cada mês (se a moça for esperta como eu, claro!), papel higiênico lambrecado de excrementos nojentos entre outras infinitas coisas que jogamos numa latinha ou num baldinho os quais, em sua maioria, têm um saquinho plástico dentro. Este, quando cheio, a gente pega, dá um nozinho e joga lá fora onde o lixeiro pode recolher. Sim, este é o nosso lixo. Eu não sei o que você pretende fazer com o seu, mas o que eu sei é que não tenho a mínima idéia do que eu vou fazer com o meu de agora em diante.
Desde 2008 foi sancionada uma lei aqui em Belo Horizonte que proíbe o uso das sacolinhas de plástico convencionais pelo comércio - Lei 9.529/08. A idéia visa que se encontrem novas saídas, tanto pra sacola de compra que todo mercadinho de esquina tem, como para os sacos de lixo propriamente ditos, que também não poderão mais ser usados a menos que sejam oxibiodegradáveis. O comércio em geral tem até o fim desse mês (ou o meio do que vem, não sei ao certo) pra dar um sumiço nessas sacolinhas comuns - que demoram até 400 anos para se decompor. Para tal tarefa, há apenas duas alternativas: ou bancar a produção das tais sacolinhas oxibiodegradáveis, que levam apenas 18 meses para sumir do planeta, mas que custam 15% a mais que as antigas, ou conscientizar a população para o uso de sacolas retornáveis. Mas e o meu lixo? O quê que eu faço com ele? Vou mesmo ter que comprar saquinhos próprios?
Eu, assim como a grande maioria das pessoas desta cidade, uso as sacolinhas de supermercado para acoplar meu lixinho diário. Coloco duas dentro do baldinho do banheiro e duas no baldinho da cozinha. Troco estas sacolinhas por novas bem mais que duas vezes por dia. Sou daquele tipo de pessoa que acha que balde de lixo é uma coisa que tem que ficar a mais vazia e limpa possível. Você pode me chamar de pobre-favelada-sem-classe-desvalida, mas não uso mesmo os sacos próprios para lixo. Primeiro porque meus baldes de lixo são pequenos e as sacolas de supermercado servem muito bem neles. Segundo porque, se eu consumo o tempo inteiro e se tudo o que eu compro vem dentro de uma sacolinha dessas, qual o sentido de não dar sentido a estas sacolas? Sempre as aproveitei para colocar lixo sim e reconheço. Agora, se eu não posso mais contar com elas para jogar meu lixo fora e se até os saquinhos de lixo – próprios pra isso - estão sendo questionados, qual é a proposta para o futuro dos meus resíduos?
Veja bem, eu não estou reclamando de ter que comprar aquelas sacolas super fashion que o Ronaldo Fraga fez para o Verdemar. Não mesmo! Inclusive tenho quase as coleções todas, desde a lançada em 2007, como a coleção de 2011. Compro todas e acho cada uma mais linda que a outra! Logo, meu problema não é deixar de usar as sacolas de plástico comuns.
Também não estou reclamando de com isso ter de comprar sacos próprios para o meu lixo. Entendo a situação e acho tudo isso muito digno.
O que eu não entendo é porque nesse raio de país tudo tem que ser feito pelos côcos, pela metade, a toque de caixa. De que serve retirar as sacolinhas do mercado sem antes conscientizar a população sobre o modo correto de alocar, separar e destinar seu lixo? Você acha que uma pessoa que passou 30 anos da vida usando plástico para jogar as coisas, sabe alguma coisa sobre reciclagem? E você acha que esta pessoa vai se acostumar, de uma hora para outra, a usar caixas de papelão para jogar seu lixo para fora? E de onde virão tantas caixas de papelão? E mais: qual o sentido de não usar a sacolinha (porque ela prejudica o meio-ambiente), se em Belo Horizonte a gente só tem aterro sanitário e nenhum (ou quase nenhum) programa de coleta seletiva? Quer coisa mais prejudicial que o tal do aterro sanitário? São coisas como estas que vão me dando nos nervos...
Então tá combinado: a partir da semana que vem, sei lá, passo a colocar meu lixo dentro de materiais recicláveis. Os que antes ficavam nas sacolas de supermercado, vou enrolar em jornais e, os enrolados em jornais, vou colocar em caixas de papelão e levar para a lixeira da rua. Mas aí o caminhão de lixo passa, o lixeiro joga aquilo tudo dentro da caçamba e depois tudo vai parar num aterro. Diminui a poluição, mas não resolve o problema do lixo. E não resolve não só porque vai para o aterro, mas porque a raiz do problema não foi tratada, que é a consciência da população. Lixo vai continuar sendo encontrado pelas ruas afora, dentro de rios, entupindo bueiros e vai ser a mesma lenga-lenga de sempre.
Aqui, neste país chamado Brasil, poucos parecem pensar. E não é só com relação a lixo não, é com relação a tudo. Todos os nossos problemas a gente quer resolver de uma hora para a outra.
Quer controlar a inflação? Bloqueia a circulação de dinheiro no país. (Se esqueceu do Collor?)
Quer subir o índice de alfabetização no país? Obriga os meninos a ficarem na escola, via bolsa-escola de preferência. Mesmo que isso não signifique aprendizado real algum, mais crianças, estatisticamente, serão alfabetizadas – já que ser alfabetizado para o governo é o mesmo que freqüentar uma escola. (E pensar que estes meninos estão chegando às faculdades... que medo!)
Quer diminuir os gastos do governo e problemas sociais causados pelo fumo? Põe uma fotinha bem feia de gente detonada nos maços de cigarro, afinal, o medo é o nosso maior conselheiro, não é?
Quer ensinar motorista a seguir as leis de trânsito? Multa neles! Só a dor no bolso ensina - pensam nossos governantes (pensam?).
Por quê que tudo aqui tem que ser assim, na base da ignorância, levando nada a lugar nenhum no fim das contas? Não seria mais racional se fôssemos um povo que soubesse dar tempo ao tempo, fazendo as coisas com inteligência, respeitando os limites humanos de assimilação, compreensão e conscientização das questões de interesse universal? Por que ficar se comparando com o Velho Mundo o tempo todo, achando que temos a mesma maturidade e educação (no sentido de PAIDEIA, formação) que eles de lá têm?
Eu não acho errado querer mudar as coisas não. Aliás, acho legal, porque se a gente quer mudar é porque consegue ver que existe algo ruim que pode ser melhor. Mas como educadora eu sei que este tipo de mudança não nasce da noite para o dia. E é por isso que, mesmo tendo minhas sacolinhas fashion Verdemar by Ronaldo Fraga, ainda não sei o que fazer com o meu lixo.