terça-feira, 5 de abril de 2011

Mandala


Tem umas coisas na minha vida que nunca deveriam ter aparecido.
Mas de repente elas aparecem.
E de repente elas somem, sem deixar vestígio.
E elas, que nunca deveriam ter aparecido, justamente quando somem, ganham de mim um significado que nunca tiveram.
E aí eu sofro.
Tento mantê-las próximas de mim, mas é difícil porque, já que elas nunca deveriam ter aparecido, não vão ficar mesmo por perto.
Aí um dia, sem mais nem menos, percebo isso tudo: que estas coisas nunca deveriam ter aparecido, que dei mais sentido a elas do que elas mereciam e que tenho que deixá-las ir embora - mandá-las embora, se for o caso.
E foi o que eu fiz hoje.


Vai, vai embora, coisa.
E não volta mais, porque seu lugar não é aqui.

(As coisas têm o valor que nós damos a elas.)

terça-feira, 29 de março de 2011

O Quê Que Eu Faço Com o Meu Lixo?


Você que está acostumado(a) a ler as coisas que escrevo aqui neste espaço provavelmente pensou quando leu o título desse post: “Deus, lá vem essa infeliz falar das lamúrias da vida dela de novo! Que saco”. Sinto informar que se você pensou isso você está absolutamente correto(a)! Vou me lamuriar muito e vou sim falar de saco. Mas informo-lhe também que, desta vez, tenho certeza que as lamúrias que vou compartilhar aqui podem também ser lamúrias suas, da sua mãe, da sua tia, ou de qualquer pessoa que tem um lar e cuida dele.

Sim, eu estou falando de lixo mesmo, esta porcariada composta por um emaranhado de restos de coisas que consumimos ou que não têm utilidade: cascas de banana, restos de comida, cocô de gato, cachorro ou seja lá o bicho que você tem, potes vazios de iogurte, papéis de bala, absorventes sujos contendo o abortinho natural de cada mês (se a moça for esperta como eu, claro!), papel higiênico lambrecado de excrementos nojentos entre outras infinitas coisas que jogamos numa latinha ou num baldinho os quais, em sua maioria, têm um saquinho plástico dentro. Este, quando cheio, a gente pega, dá um nozinho e joga lá fora onde o lixeiro pode recolher. Sim, este é o nosso lixo. Eu não sei o que você pretende fazer com o seu, mas o que eu sei é que não tenho a mínima idéia do que eu vou fazer com o meu de agora em diante.

Desde 2008 foi sancionada uma lei aqui em Belo Horizonte que proíbe o uso das sacolinhas de plástico convencionais pelo comércio - Lei 9.529/08. A idéia visa que se encontrem novas saídas, tanto pra sacola de compra que todo mercadinho de esquina tem, como para os sacos de lixo propriamente ditos, que também não poderão mais ser usados a menos que sejam oxibiodegradáveis. O comércio em geral tem até o fim desse mês (ou o meio do que vem, não sei ao certo) pra dar um sumiço nessas sacolinhas comuns - que demoram até 400 anos para se decompor. Para tal tarefa, há apenas duas alternativas: ou bancar a produção das tais sacolinhas oxibiodegradáveis, que levam apenas 18 meses para sumir do planeta, mas que custam 15% a mais que as antigas, ou conscientizar a população para o uso de sacolas retornáveis. Mas e o meu lixo? O quê que eu faço com ele? Vou mesmo ter que comprar saquinhos próprios? 

Eu, assim como a grande maioria das pessoas desta cidade, uso as sacolinhas de supermercado para acoplar meu lixinho diário. Coloco duas dentro do baldinho do banheiro e duas no baldinho da cozinha. Troco estas sacolinhas por novas bem mais que duas vezes por dia. Sou daquele tipo de pessoa que acha que balde de lixo é uma coisa que tem que ficar a mais vazia e limpa possível. Você pode me chamar de pobre-favelada-sem-classe-desvalida, mas não uso mesmo os sacos próprios para lixo. Primeiro porque meus baldes de lixo são pequenos e as sacolas de supermercado servem muito bem neles. Segundo porque, se eu consumo o tempo inteiro e se tudo o que eu compro vem dentro de uma sacolinha dessas, qual o sentido de não dar sentido a estas sacolas? Sempre as aproveitei para colocar lixo sim e reconheço. Agora, se eu não posso mais contar com elas para jogar meu lixo fora e se até os saquinhos de lixo – próprios pra isso - estão sendo questionados, qual é a proposta para o futuro dos meus resíduos?

Veja bem, eu não estou reclamando de ter que comprar aquelas sacolas super fashion que o Ronaldo Fraga fez para o Verdemar. Não mesmo! Inclusive tenho quase as coleções todas, desde a lançada em 2007, como a coleção de 2011. Compro todas e acho cada uma mais linda que a outra! Logo, meu problema não é deixar de usar as sacolas de plástico comuns. 



Também não estou reclamando de com isso ter de comprar sacos próprios para o meu lixo. Entendo a situação e acho tudo isso muito digno.

O que eu não entendo é porque nesse raio de país tudo tem que ser feito pelos côcos, pela metade, a toque de caixa. De que serve retirar as sacolinhas do mercado sem antes conscientizar a população sobre o modo correto de alocar, separar e destinar seu lixo? Você acha que uma pessoa que passou 30 anos da vida usando plástico para jogar as coisas, sabe alguma coisa sobre reciclagem? E você acha que esta pessoa vai se acostumar, de uma hora para outra, a usar caixas de papelão para jogar seu lixo para fora? E de onde virão tantas caixas de papelão? E mais: qual o sentido de não usar a sacolinha (porque ela prejudica o meio-ambiente), se em Belo Horizonte a gente só tem aterro sanitário e nenhum (ou quase nenhum) programa de coleta seletiva? Quer coisa mais prejudicial que o tal do aterro sanitário? São coisas como estas que vão me dando nos nervos...

Então tá combinado: a partir da semana que vem, sei lá, passo a colocar meu lixo dentro de materiais recicláveis. Os que antes ficavam nas sacolas de supermercado, vou enrolar em jornais e, os enrolados em jornais, vou colocar em caixas de papelão e levar para a lixeira da rua. Mas aí o caminhão de lixo passa, o lixeiro joga aquilo tudo dentro da caçamba e depois tudo vai parar num aterro. Diminui a poluição, mas não resolve o problema do lixo. E não resolve não só porque vai para o aterro, mas porque a raiz do problema não foi tratada, que é a consciência da população. Lixo vai continuar sendo encontrado pelas ruas afora, dentro de rios, entupindo bueiros e vai ser a mesma lenga-lenga de sempre.

Aqui, neste país chamado Brasil, poucos parecem pensar. E não é só com relação a lixo não, é com relação a tudo. Todos os nossos problemas a gente quer resolver de uma hora para a outra. 

Quer controlar a inflação? Bloqueia a circulação de dinheiro no país. (Se esqueceu do Collor?) 

Quer subir o índice de alfabetização no país? Obriga os meninos a ficarem na escola, via bolsa-escola de preferência.  Mesmo que isso não signifique aprendizado real algum, mais crianças, estatisticamente, serão alfabetizadas – já que ser alfabetizado para o governo é o mesmo que freqüentar uma escola. (E pensar que estes meninos estão chegando às faculdades... que medo!)

Quer diminuir os gastos do governo e problemas sociais causados pelo fumo? Põe uma fotinha bem feia de gente detonada nos maços de cigarro, afinal, o medo é o nosso maior conselheiro, não é? 

Quer ensinar motorista a seguir as leis de trânsito? Multa neles! Só a dor no bolso ensina - pensam nossos governantes (pensam?). 

Por quê que tudo aqui tem que ser assim, na base da ignorância, levando nada a lugar nenhum no fim das contas? Não seria mais racional se fôssemos um povo que soubesse dar tempo ao tempo, fazendo as coisas com inteligência, respeitando os limites humanos de assimilação, compreensão e conscientização das questões de interesse universal? Por que ficar se comparando com o Velho Mundo o tempo todo, achando que temos a mesma maturidade e educação (no sentido de PAIDEIA, formação) que eles de lá têm?

Eu não acho errado querer mudar as coisas não. Aliás, acho legal, porque se a gente quer mudar é porque consegue ver que existe algo ruim que pode ser melhor. Mas como educadora eu sei que este tipo de mudança não nasce da noite para o dia. E é por isso que, mesmo tendo minhas sacolinhas fashion Verdemar by Ronaldo Fraga, ainda não sei o que fazer com o meu lixo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Não Sei O Que Fazer Com O Que Fizeram De Mim



Eu não tenho vergonha nenhuma de sentir pena de mim mesma. Você pode tentar me convencer de todas as formas possíveis da sorte que eu tive na vida, de nunca ter passado nenhuma necessidade, de ter tido uma boa educação, de ter plena e perfeita saúde, uma família completa e o caralho a quatro. Isso tudo pra mim é bosta. De que adianta ter isso tudo e sentir esse vazio absurdo? Antes não tivesse nada, pra ver como é...

Também não sinto remorso nenhum por culpar meio mundo pelas minhas desgraças. Pelo menos dois terços das dificuldades que eu sinto em existir e enfrentar a vida no dia a dia foram causados por alguém, ou seja, não vieram comigo de fábrica. As humilhações que já sofri, minhas inseguranças, minhas neuroses, minha baixa (inexistente?) auto-estima, tudo isso foi provocado por alguém. Não são itens de série.

Gostaria muito de não ter nascido. Tento, mas não consigo me lembrar de um momento sequer em que pensei diferente. Desde cedo questionava minha mãe sobre o assunto. Ela achava um absurdo eu pensar assim. Obviamente devia pensar que minha vida era boa demais e eu reclamando... O fato é que eu sabia, de alguma forma, que tudo seria tal como é: sem graça, sem sentido e com complicações cada vez maiores. 

Fui crescendo, assumindo cada vez mais responsabilidades - que eu não queria assumir. Fui tendo que tomar cada vez mais decisões - que eu não estava pronta para tomar. Fui conhecendo pessoas que em sua maioria não fizeram diferença nenhuma na minha vida, pelo menos não diferença positiva. Fui me envolvendo com elas, com as que me fizeram mal e com as que me fizeram bem. Fiz com que elas se envolvessem comigo, criando com elas laços e histórias que vou carregar pra sempre, uma gama de lembranças, sensações, sentimentos, nem todos bons, nem todos agradáveis... Gostaria muito de não ter que passar por isso e de não ter que trazer ninguém pra perto, mas parece que não tem jeito: faz parte da vida cagar e espalhar merda pra tudo quanto é lado. 

É que eu sei que eu sou complicada demais pra cruzar o caminho de alguém e deixar essa pessoa incólume. Eu sempre faço estragos, seja quando sou agressiva e destrato, seja quando amo e me dedico. De uma forma ou de outra dá tudo errado. Não sei me expressar, troco os pés pelas mãos, falo o que não devo, calo o que não devo, e no fim das contas dá tudo errado mesmo. Saio sempre com a sensação de que agi da forma errada, que tomei a decisão errada, que devia ter feito tudo diferente. Tenho um atraso (este sim, de fábrica!) entre o pensar e o agir. Quando dou por mim já fiz, e não devia ter feito, ou devia ter feito de uma outra maneira. Enfim, sempre tudo está errado.

Eu não amo como eu gostaria de amar nem como eu imagino que o amor deva ser. Aliás, acho que eu nem sei como deve ser o amor. Acho essa palavra tão desgastada, tão surrada, tão enfiada em qualquer buraco que sinto enorme dificuldade em descrever o que ela significa pra mim. Inclusive falei poucos “eu te amo” ao longo da minha vida e, quando falei, acho que foi sempre algo meio mecânico, respondendo à solicitação de alguém. Da minha família mesmo acho que posso contar de verdade, e nos dedos de uma mão, quantas vezes ouvi essa expressão. Ela começou a ser pronunciada com mais frequencia quando alguns membros começaram a morrer. Estranho como o amor fica escondido até a morte aparecer... 

Enfim, voltando à definição de amor, não sei formulá-la. Acho que o amor é um sentir-se bem na companhia do outro, uma vontade de ficar junto, seja o outro quem for: um par erótico (e aí surge a instância sexual do amor), um parente ou um amigo. Não é Freud quem fala que a amizade é o amor inibido em sua finalidade? Pois então! O amor é um querer ficar junto e querer o bem incondicional do outro – e no caso da amizade, sem trepar. 

Seja o que for, não sei lidar muito bem com o amor, nem com o amar, nem com o ser amada. Sim, é verdade. Sempre acho que dou de mim bem menos do que eu deveria dar. E quando tento contornar isso, o resultado me parece algo tão falso, tão forçado... Me falta a naturalidade, a espontaneidade que eu sempre imaginei fazer parte do amar. Tocar com naturalidade, dar um simples abraço com naturalidade... Acho tudo meio encenação. No mais íntimo de mim: não sinto vontade nenhuma de abraçar ninguém. Faço por convenção social. 

Isso não quer dizer que eu não tenha o afeto e o carinho. Eu os tenho. Mas não sei demonstrar. É aí que tudo sai errado. Talvez essa seja uma herança de família. Do nicho que eu venho as pessoas não se tocam, não fazem cafuné, não fazem carinho umas nas outras. Deve ser por isso que eu sou a porteira que eu sou. E sendo como sou, sinto em grande parte do tempo que sempre deixo a desejar. Sou ausente e relapsa com as minhas amizades e muitas vezes vazia e pouco dedicada ao homem que eu amo – sim, porque eu o amo muito! Sinto verdadeiramente que deve ter sido um azar muito grande para as pessoas que convivem comigo terem me conhecido. Eu sempre me sinto em débito, sempre dando menos do que recebo. Mas eu dou o que posso e faço o que posso, muito embora muitas vezes não pareça. 

Enfim, chega né? Tô cansada de continuar com essa mesma lenga-lenga de sempre, minhas angústias, meus vazios, minhas desgraças pessoais. Adianta o que ficar aqui falando das coisas em mim que me incomodam e que nunca poderei mudar? É por isso que eu bebo! 

Ah Zeus, eu não bebo... me esqueci! Me esqueci que além de a vida não ter graça nenhuma eu ainda não bebo o quanto eu gostaria e não fumo o que eu gostaria nem o quanto eu gostaria. Às vezes eu me esqueço de que o fundo do poço tem porão...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta! 

 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

domingo, 20 de março de 2011

Vontade Na Reserva e Piscando

O quê que eu faço pra tirar essa angústia de mim? O quê que eu faço? Pode falar! Eu faço qualquer coisa! Mas que seja breve, pra ontem. E que eu não tenha que sentir mais do que eu já sinto. Nada de escavação arqueológica no solo sagrado do meu existir. Merda, já diziam os sábios, quanto mais mexe, mais fede. Não quero mais fedor. Quero ficar livre dessa catinga maldita, desse peso insuportável, desse edema nos pulmões que não me deixa respirar fundo sem engasgar.

Perdi a crença de que analisar resolveria. Não quero esmiuçar nada. Não quero entender nada quando o que me importa é o que eu sinto. Não quero repetir, não quero reviver, resignificar, não quero ver sob novos ângulos, não quero nada disso.

Também não vou rezar. Se rezar adiantasse de alguma coisa o mundo seria perfeito. Tem gente demais rezando já e acreditando, acreditando, acreditando. Acreditando em que? Esperando de onde? Não vejo sentido em repetir uma sequencia de versos decorados que não fazem sentido nenhum pra mim. São palavras vazias. Só isso.

Não vou fazer exercícios físicos, nem controlar minha respiração e muito menos fazer posições que vão me trazer mais dores que as que eu já sinto. Eu não dou crédito pra isso. Assim como também não dou crédito pra macumba, feitiçaria, simpatias, trabalhos nem coisas afins. Não dou crédito pra nada além de qualquer coisa que possa resolver meus sintomas no ato: analgésicos fortes, ansiolíticos, maconha e qualquer outra droga que aja imediatamente. E não me importam os efeitos colaterais contanto que eu tenha mais drogas para controlá-los.

E pára de achar que eu sou esperta e inteligente o suficiente pra estar dizendo estas coisas da boca pra fora. Você é que não está sendo uma pessoa muito esperta se acha que eu sou mais do que pareço ser. Sou só isso mesmo. E estou dizendo o que eu de fato estou pensando no momento. Cansei de achar que eu posso mudar, que eu posso trabalhar minhas idéias, meu modo de ver o mundo, a maneira como lido comigo e com os outros. Parece mesmo que algumas coisas nunca mudam... A gente se esforça pra que isso aconteça e tenta se enganar achando que alguma mudança ocorreu no fim das contas. Tudo mentira. Aquela primeira impressão ela permanece. 

Vou dizer mais uma vez: não quero fazer nada por mim. Não quero fazer tratamento nenhum, não quero ler nada (cansei de ler!), não quero ouvir palavras sábias (porque em uma orelha tenho escrito ENTRADA e na outra SAÍDA), não quero bons exemplos, não quero impressionar ninguém com a minha força e determinação e minha capacidade de superar as dificuldades. Não tenho nada disso. Não tenho vontade. Nenhuma. Pra nada. Por nada. Por ninguém.

A única coisa que eu quero é ficar livre desse sufocamento em vida, mesmo que isso signifique ficar livre da própria vida. Ela não vale nada pra mim mesmo... É só um tempo longo passado num lugar ruim e sem graça. Sinto apenas por aqueles que, sabe-se lá como, cativei em algum momento. Sinto pelos que me amam quando eu mesma não sou capaz de sentir isso por mim. Eu não estou mais segurando a onda. Tá pesado demais. Cada dia mais. Vou levando até onde der, acordando todos os dias contando os minutos para o dia acabar, tomando anti-histamínico pra passar essa alergia da vida e ansiolítico pra conseguir dormir. De vez em quando me divirto, mas é muito de vez em quando.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A Outra Voz Que Me Fala (Cala)


Você deveria ouvir música fácil. Aquelas que grudam na memória e a gente não tem que pensar muito sobre o que elas significam. Isto é o que você deveria fazer: não pensar muito. Em tudo! Em nada! Em qualquer coisa que você faça! Nunca pensar muito, só o necessário. Quanto é o necessário? O quanto for necessário, ora pois! Ir além pra que? Pra que ficar querendo entender o ambiente, o modo como as pessoas se comportam, se elas se comportam...? Por que se preocupar demais, por quê? De que serve essa mania patológica descontrolada e desenfreada de significar e achar significado, se o momento é único e ele é lindo? Pra que entender o que é lindo? Por que te incomoda tanto não saber explicar com razões claras e racionais os acontecimentos da sua vida? 

Deixa essa porra toda pra lá! Ninguém se importa, ninguém se lembra mais... Mas você não, você parece fazer questão de se lembrar de cada instante, de cada ato, de cada fala, de cada movimento. Você parece ter vindo ao mundo para tomar notas. Mas como é uma cientista fracassada – porque não sabe lidar com o processo de construção de conhecimento que exige objetividade e não subjetividade – fica com todas as suas notas, blocos e blocos delas, e não sabe nem sequer ler o que ali está escrito.

Eu sei que semanas atrás você releu um desses blocos. Você escolheu uma data precisa – porque você tem as suas razões para não se esquecer desta data e isso é um direito seu - e dichavou cada descrição que havia nela. Início, meio e fim. Esquemas. Macetes. Você aspirou fundo, mas tão fundo aquela fumaça toda que aquilo te fez chorar. Você não sofreu pelo engano que pode ter sido, nem por aquilo que você talvez não devesse ter feito. Eu sei que você não se arrepende, de verdade. Você chorou por não compreender sequer um momento dos tantos que você viveu. Você chorou porque você viveu, estava lá, poderia ter se dado por completo, mas deixou o momento passar batido por causa dessa maldita compulsão de reter para entender depois. Não tem que entender, minha filha! Você tem que sentir e é só! Quando é que você vai enfim aprender a trabalhar com estas duas instâncias em você, pensar e sentir? Enquanto você insistir em deixar o que você sente decidir seu caminho, você vai se fuder. E é simples, porque aquilo o que a gente sente, nem sempre tem explicação racional. A cadeia que transforma um fato concreto numa lembrança pessoal ela não é de fácil mapeamento. É difícil nestes casos entender como que de A chegamos a B. São muitos percalços, muitas possibilidades de rotas... O caminho que é tomado no fim das contas, quem sabe dizer por quê?

Pára de tentar entender o que não é pra ser entendido. Ou você acredita realmente que tudo o que aí está será um dia esmiuçado? 

Eu sei que você tem um gosto particular pela problematização. Aliás, o problema é seu se, por isso ou por aquilo, escolheu a trilha mais difícil entre tantas. Azar o seu! Mas o fato é que, se ficar tentando achar a razão de ser de todas as coisas – porque ele te comeu, porque escolheu você e não a outra, porque tudo mudou e nada mudou, porque nada faz sentido, porque o tempo é relativo, porque o que é belo para uns não é para outros, porque teve de ser assim, porque preferem frango a peixe... – você vai continuar perdendo as coisas elas mesmas, os instantes, os sabores que só duram naquele derradeiro instante que se passa como brisa breve. Não adianta tomar nota. Rasga essa papelada toda! Isso não vai te levar a lugar algum. Só vai te dar a impressão de que possui alguma coisa. Mas, saiba, você não possui nada.


sábado, 26 de fevereiro de 2011

Um Peão Tem Lugar No Meu Colo

Estava eu hoje passando frio em mais um desses ônibus fuleiros que levam nada a lugar nenhum, sofrendo com uma janela despencada que não conseguia se manter fechada. Tentava, tentava, mas a janela, meio quilômetro depois, já estava aberta e ventando em mim.
De repente o ônibus pára em frente a uma mineradora e me entra um peão daqueles fortes, malhados, que se senta do outro lado do corredor, mas do meu lado. Vi que ele estava me observando, mas não dei muita trela pra neguinho num ficar achando que eu tô precisada.
Na verdade ele tava era vendo a minha peleja com a janela empenada.
Me distraio um pouco e quando dou por mim o peão está de pé do meu lado, praticamente sobre mim, me perguntando alguma coisa que os fones de ouvido não me deixaram entender. Tirei um dos fones e com uma cara de sonsa perguntei:
- "O que?"
E ele:
- "Você quer abrir ou fechar?"
Com um olhar de mocinha indefesa, falei com uma doçura que sinceramente não sei de onde veio:
- "Quero fechar, mas não estou conseguindo..."
Aí ele, num gesto brusco, mas certeiro, meteu um murrão na janela que, sem outra opção diante desse sopro de masculinidade, só pôde fechar.
Senti o cheio do seu suor impregnado. Devia ter trabalhado a noite toda e estava voltando pra algum lugar de onde só os peões fortes e másculos vem.
Respirei aquele cheiro, dei um risinho e agradeci.
Ele deu de costas, fez sinal para o motorista e desceu.
Vou pensar nele eternamente como a imagem do macho pelo qual, qualquer mulher minimamente honesta, já imaginou ser tocada.
Homens doces são legais. Os filhinhos-da-mamãe de cuequinha branca, os pseudo-cultos mal lavados, os cultos (mais brochantes que os outros), os estranhos... Mas um peão, ah, ele tem seu lugar!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Aonde Quer Que Você Esteja


Mãe, olha só, eu não sei se você está em algum lugar especial ou em algum lugar desgraçado. Na verdade eu nem sei se acredito que você esteja em algum lugar. Mas agora que já tem quase 15 anos que a gente não se vê, queria que você estivesse por perto e que soubesse que muita coisa mudou, muito embora pouco dessa mudança eu perceba em mim como positiva.

Eu sei que se você estiver em algum lugar, em qualquer um em que você tenha notícias minhas, você não estará feliz. Primeiro porque eu não acredito de verdade que eu não esteja só e que você esteja por perto. Segundo porque, se você sabe o que se passa, você sabe como me sinto. Mas fico aqui pensando em tudo o que se deu desde que você se foi...

Será que você ficou feliz em saber que, no mesmo ano em você se foi, passei no vestibular, na universidade que você queria que eu passasse? Espero que sim, porque as pessoas que aqui ficaram não acharam grandes coisas – e nem eu, pra ser sincera...

Quando eu tive a minha primeira experiência sexual e não consegui expressar pra ninguém o que eu senti, você sabia o que se passava? Ficou orgulhosa de ver sua filha crescer – mesmo que a minha sexualidade seja das mais infantis até hoje?

Como você se sentiu quando eu amparei a minha irmã quando ela se tornou “mocinha”? Quando aconteceu comigo, você estava lá... Tentei ser legal com ela como você foi comigo. Tentei.

Eu sei que você não deve ter ficado feliz com as presepadas que arrumei com o meu pai logo depois da sua morte, não é? Mas você é de longe a pessoa que mais me conhecia e você sabe que, mais cedo ou mais tarde, eu teria uma atitude enérgica com relação a ele, não sabe? Assim como você sabe que sou muito brava, muito ruim, mas não sou cruel e que por isso acabo voltando atrás quando reconheço que estou dando murro em ponta de faca. E foi o que eu fiz. Isso te fez bem? A mim, aprender a entender o outro fez bem. 

Você nunca foi moralista, mãe, por isso eu sei que você não se chateou com o meu primeiro baseado (nem com os seguintes), e deve até ter achado graça da pala que eu dei na beirada daquela piscina depois da primeira bola. Aquilo é inesquecível e hilário! Tenho certeza de que você se divertiu e que deve ter pensado porque não fumou um também enquanto você podia...

E o mestrado, mãe, você gostou? Sofri tanto naquela época... Sofri tanto e no fim das contas achei tudo uma besteira enorme, inútil, sem razão, sem quê nem pra quê. Mas fiz bonito. Passei com 100, para o orgulho de poucos aqui.

Não tirei carteira como você queria e nem vou tirar. Mãe, eu acho dirigir a coisa mais gostosa e legal do mundo. Estar numa estrada, com o vento na cara e o som ligado é sensacional. Mas por alguma razão, mãe, eu não quero estudar, fazer exame de rua nem nada disso. Não quero. Não me interessa. Meu pai não consegue entender isso e me enche a paciência pra correr atrás das coisas. Mas não estou afim, mãe. Esta sua vontade – de eu dirigir - não vou poder realizar, perdão! 

Também não vou poder realizar a sua vontade de viajar pelo mundo. É que o mundo se tornou pra mim uma coisa muito pouco interessante e sendo assim, me basta o espaço que eu ocupo.

Em falar em espaço, acho que isso te fez feliz não foi, me ver magra? Pois é. Enfim, não é mãe?! Acho que você sofria com isso mais que eu e acho que por sua causa eu passei a sofrer também. Imagino que você sinta sua parcela de culpa com relação à minha infelicidade... Mas não é culpa sua não, pode ficar tranqüila! Agora que eu sou uma pessoa normal, sei bem que eu seria infeliz de qualquer maneira: magra, gorda, alta, baixa... É indiferente.

Mãe, outra vontade sua que vai ficar no vazio é a de ser avó. Vivo com uma pessoa que eu amo muito e ganhei uma família maravilhosa, de pessoas que me amam e que querem o meu bem. Acho que isso me basta. Eu não teria nunca a dedicação com um filho tal qual você teve comigo. Prefiro ficar com a responsabilidade de dar conta só de mim mesma. É muito confuso pensar em algo além disso...

Você sabe, mãe, que eu nunca tive muito claro para mim que rumo seguir na vida. E agora você deve saber como estou perdida e pra qual caminho estou tendendo. Você sabe e talvez isso te preocupe muito, porque sou impulsiva e, se tiver que fazer alguma coisa, vou acabar fazendo mesmo. Você me conhece. Você sabe inclusive que mascaro bem meus sentimentos e só os mostro a quem interessa. Só que não sobrou quase ninguém a quem isso interessa, mãe. Todo mundo está envolvido com sua própria vida e seus próprios problemas, construindo seus caminhos, correndo rumo aos seus sonhos, e isso tudo requer muita concentração, o que não deixa espaço nem tempo para olhar para os lados. Na verdade, eu acho que até dá pra olhar para os lados; não dá é pra ver muita coisa, por alguma razão. Mas entendo isso tudo e já estou, há uma longa data, acostumada a ficar trancada no quarto, eu comigo mesma. Lembra que sempre foi assim: todo mundo brincando e eu quieta no quarto? Talvez isso não fosse meu jeito de ser, não fosse normal... Mas o que passou, passou: não é assim que você pensa?

Enfim, escrevi essas linhas pra te dizer que não me esqueci de você, mesmo depois de tantos anos. Mas o tempo é uma coisa relativa, não é? Me lembro perfeitamente dos instantes antes de você partir. Você comprou nectarinas pra mim, simplesmente porque eu gosto. Ainda penso em você a cada vez que como uma nectarina... Ainda penso em você a cada instante, esta é a verdade. E sinto muito a sua falta. Sinto que você não estava aqui quando eu mais precisei. Mas, a vida é assim, não é? Ela acaba.