segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Jeff Buckley, 1994



“A sensibilidade não é uma fraqueza. Tem a ver com estar tão dolorosamente atento que mesmo uma pulga pousando sobre um cão soaria como uma explosão sonora.”


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

E Que Venha 2010!


Nenhum ano é excelente ou péssimo. Um ano são apenas 365 dias nos quais fizemos ou não algo que prestasse. Enfim, não se trata de um ano bom ou ruim, porque, no fim das contas, um ano são só 365 dias e pronto (às vezes um ano são 366 dias, mas só às vezes). O que faz a diferença mesmo são as pessoas. E se, em 2010, eu for a mesma pessoa que eu fui em 2009, vou continuar achando que um ano é só um ano.

Em 2009 não fiz nada de bom – nem nada de péssimo, para ser justa. Comecei uma nova fase, eu sinto, mas ainda não sei fazer um juízo de valor. Tudo é muito confuso, TODAS as minhas medidas mudaram: grande, pequeno, bom, ruim, certo, errado... Não tenho mais padrões, nem mesmo para avaliar se esta condição me incomoda ou não. Simplesmente sinto, não sei dizer.

Percebo que às vésperas de completar 30 anos carrego comigo os mesmíssimos conflitos e indefinições de sempre. As mesmas coisas que sempre me irritaram continuam a fazê-lo da mesma maneira. Permanecem em aberto as mesmas situações mal-resolvidas de sempre, as feridas mal-curadas, as interrupções abruptas que continuam sem os devidos esclarecimentos de todas as partes envolvidas...

Primeira promessa para 2010: exorcizar meus demônios e resolver minhas querelas comigo mesma. O resto é resto.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

“Quem Cala Consente?”

Eu tinha um tanto de coisa pra dizer nesse post. Um tanto de coisa mesmo: raivas, angústias, segredos, confissões e declarações de amor e carinho... Eu sei que todas essas coisas vão continuar pedindo pra sair e mais cedo ou mais tarde vão acabar saindo. Mas, entretanto, sabe-se lá por qual razão, quando eu estava aqui tentando organizar as minhas idéias para tecer um texto coeso, que falasse de uma só vez tudo isso que quer sair, lembrei-me de um filósofo que li quando estava ainda na faculdade e que na época eu detestei - um tal de Ludwig Wittgenstein, doidão, bicha mal-comida, que eu absolutamente nunca fiz força para entender direito, mesmo quando um dos principais textos dele caiu na banca de seleção do mestrado...

E é dos textos desse moço que saem as três frases que resumem (em código, claro), absolutamente tudo o que está entalado aqui.

Entendam como quiser. A mim pouco importa mesmo. O que eu sei é que, talvez, eu devesse retomar Wittgenstein e agora com mais atenção... 
“O mundo é tudo o que acontece”. (L. Wittgenstein)
“O humor não é um estado de espírito, mas uma visão de mundo”. (L. Wittgenstein)
“O que se pode dizer pode ser dito claramente; e aquilo de que não se pode falar tem de ficar no silêncio”. (L. Wittgenstein)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Lexapro 10mg

Tenho tanta coisa pra dizer que, na falta de como falar e/ou na falta de com quem falar, decidi desde então ficar em silêncio - e já vai um tempo que venho tentando me organizar para não dizer nada...

Mas não se trata de um silêncio absoluto, daqueles em que não se ouve som algum. O meu silêncio é só o silêncio de quem não diz o que deve ser dito. Decidi calar-me, enfim.

Não vou mais dizer às pessoas como sofro, como me angustio, como me sinto um nada, ninguém, insignificante, porque não suporto mais ouvir que isso é mentira e que estou enganada. Cansei de ouvir todas as soluções que eu por mim mesma não consigo visualizar. Resolvi assumir aquilo que sempre tive de certo, que é esse sentimento vazio que sinto.

As pessoas à minha volta simplesmente não entendem que há uma diferença abissal entre pensar e sentir. Uma coisa racionalmente viável e de fácil compreensão não é nada disso quando experimentada de forma diferente, ou seja, uma coisa sou eu saber disso, disso e daquilo, mas outra coisa completamente diferente é a maneira como me sinto, totalmente contrária àquilo que sei. E quem explica? O que sei é que venho, durante todo esse tempo, vivendo de acordo com o que sinto. Se não faço nada, se não quero nada, se não almejo nada, é porque esta é a forma como me sinto.

Outro dia perguntei ao meu médico o que acontecia às pessoas quando os antidepressivos não existiam: “- Doutor, o que acontecia às pessoas antes de existirem drogas como estas que venho tomando? Elas se matavam?” Ele deu uma risadinha e me disse que nem todas se matavam efetivamente, mas que se matavam de outras formas, levando uma vida que não era muito diferente da própria morte. Fiquei cá com os meus botões pensando o que exatamente ele quis dizer... Será que ele acha mesmo que manter as pessoas dopadas, cheias de serotonina sintética, forçando que elas saiam da cama todos os dias e que acordem com a certeza de que terão um dia significativo é diferente de prolongar a vida às custas da morte, quer dizer, não é o mesmo que mantê-las mortas-vivas? Sim, porque afinal de contas, que vida é essa? Eu particularmente não tenho nada para reclamar desta vida assim não. De fato acordo todos os dias com uma listinha de coisas para fazer e, na maioria das vezes, não deixo nada pra trás. Leio, ouço música, vejo TV, bordo, faço caminhada, ginástica duas horas por dia, namoro, falo ao telefone, perco horas aqui na frente dessa desgraça de computador inútil, penso na vida, cuido do Sig... As horas passam e quando me dou conta o dia acabou, uma semana se passou e lá se vai mais um mês. Estou viva, não estou?

Não dou mais linha para os meus pensamentos ruins. Eles continuam aqui, mas os ignoro. Sei que o tempo está passando e que meu dinheiro vai chegando ao fim, mas e daí? Nem isto consegue tirar o efeito do meu remédio e nem diminuir minha decisão de nada mais falar.

O que eu tenho claro para mim é que, se eu vivesse completamente sozinha neste mundo, tudo seria mais fácil. Sem conhecidos, sem amizades, sem parentes, sem pessoas que me amam... Seria muito mais fácil entregar-me ao nada, não fazer nada e não sentir que isso incomoda ou preocupa aos outros. Detesto ser alvo da preocupação alheia! Não que eu não me importe, mas eu apenas gostaria que não se importassem comigo. Se assim fosse, eu seria verdadeiramente livre para fazer o que quisesse – ou para não fazer nada, como é o caso. Afinal de contas, qual é o problema de eu ter incorporado o meu fracasso e ter decidido não ser e não fazer mais nada?

Gostaria de gritar: “- Não me salvem!!! Eu estou bem assim!” Mas como fazer com que acreditem e me deixem em paz?

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Otimismo - Tomo II

Hoje eu pensei em fazer uma lista das coisas que mais gosto na vida e outra das coisas que mais detesto. Duas colunas alinhadas paralelamente para facilitar a inevitável comparação. Pensei, pensei, pensei e desisti quando me dei conta do quanto a segunda lista seria quilométrica...

Nem vou mencionar o óbvio – de como este simples exercício hipotético apenas realçou o que eu há tempos já sabia: que a vida é uma danação -, mas me atenho a algo que nesse paralelismo ficou claríssimo para mim: muito embora a lista das coisas que mais gosto fosse irrisória, percebi que, apesar de tudo, essas poucas coisas são coisas verdadeiras. Isso quer dizer que, se por acaso eu viesse a morrer repentinamente, o pouco de coisas boas que vivi e os pequenos prazeres dos quais eu me deliciei teriam sido suficientes para fazer valer essa existência cretina.

É óbvio que falar de morte dessa forma, de repente, é quase sempre dizer que a morte não assusta. E esta é uma idéia comum. Epicuro mesmo reforça esse ponto de vista quando afirma que não devemos temer a morte, porque quando somos ela não é e quando ela é, não somos. Entretanto, por mais verdadeira e mais bem retoricamente estruturada que seja esta idéia, ainda insisto em afirmar que a morte só não assusta quando é a morte do outro, e não a nossa própria morte. Se morrer fosse fácil, diante de qualquer grande dificuldade esta seria a nossa primeira e única opção... E dado que nessa vida passamos mais de 90% do nosso tempo enfrentando dificuldades – umas grandes, umas pequenas, outras enormes – se nos matássemos diante de cada empecilho a humanidade simplesmente não perpetuaria. (Particularmente sou da opinião de que não se perderia grandes coisas, mas como ninguém me perguntou nada...)

Enfim, retomando o eixo dessa divagação, o que percebi é que, mesmo minha lista das coisas ruins sendo infinitamente maior que a das coisas que me fazem menos infeliz, se eu tivesse que morrer em breve saberia perfeitamente das coisas que eu sentiria falta. Sim, porque a gente só sente falta daquilo que nos fez bem, que valeu a pena. O que foi ruim, que maltratou, que foi ingrato, burro e odioso, isso se mistura à rotina, aos dias e mais dias, se perde em meio ao cotidiano, porque coisa ruim, que maltrata, que é ingrata, burra e odiosa, ah, isso tem toda hora e é coisa tão comum, mas tão comum, que banalizamos e nem nos lembramos mais, porque não se distingue em meio às outras coisas. O que faz diferença mesmo são as coisas boas. E elas podem ser ridículas de pequenas que mesmo assim ficam para sempre cravadas em algum lugar em meio às nossas lembranças, porque são coisas especiais e coisas especiais não são coisas comuns.

domingo, 16 de novembro de 2008

A Janela e a Tempestade Que Se Aproxima

A coisa toda começou de forma estranha. Eu já estava incomodada porque era o Frank que estava comigo, no meu sofá, sentadão lá conversando, tão à vontade que parecia ser gente de casa, pessoa íntima mesmo. Até a calça ele tinha tirado... Estava lá sentado no sofá, de cueca e com os pés sobre a mesa de centro. E eu sentia que alguma coisa estava mesmo estranha porque eu simplesmente nunca estaria em situação assim com o Frank... E para piorar minha sensação de deslocamento, havia uma mulher na casa – na minha casa, diga-se de passagem – administrando tudo. No meu íntimo eu sabia que se tratava da minha mãe, muito embora ela não tivesse nada da minha mãe: era alta e magra, branca dos cabelos pretos. Minha mãe nunca foi assim.

Então éramos eu no sofá sentada ao lado do Frank – que parecia ser mais que um mero amigo, mas meu namorado – e minha suposta mãe preparando café ou sei lá o quê na cozinha, quando a chuva sorrateiramente começou a cair com força lá fora.

Moro num apartamento que fica num andar bem alto, o vigésimo sexto, e de lá dá para ver quase a cidade toda. Quando chove tenho o hábito de ficar na janela - que mede exatamente um lado da parede da sala - vendo a cidade se molhar: o trânsito pára e as montanhas que emolduram a paisagem desaparecem em meio às nebulosidades e à chuva que cai.

Naquele dia não foi diferente. Aproveitei a desculpa da tempestade para me livrar do Frank (como já disse, a presença dele me incomodava). Tive dificuldade de recolher a cortina que saiu quase toda pela janela entreaberta graças às bruscas rajadas do vento. Frank veio me ajudar quando viu que as cortinas estavam quase sendo arrancadas dos trilhos. Mas antes mesmo que conseguíssemos fechar a janela após ter colocado para dentro as cortinas encharcadas, a tempestade já havia perdido o tom cinza-claro de antes e adquirido um ar mais sombrio, um tom cinza-chumbo assustador. Foi nesse exato momento que me dei conta de que, além do Frank e da minha “mãe”, estava também no apartamento uma criança, um menino magricelo, de pele branca e cabelos negros e lisos, usando camiseta e short e que devia ter uns sete ou oito anos de idade e com quem eu não tinha absolutamente nenhum laço de afeto. Nem sei quem era esse menino... Entretanto, foi ele quem me ajudou de fato a fechar a janela dos dois lados e a travá-la, para que ela não corresse e abrisse com a força da tempestade, que estava ainda mais agressiva - tão agressiva que senti medo.

Era dia e estava escuro. Acendemos as luzes da sala porque tudo tinha se tornado um breu. Com muito mais medo olhei para a janela para conferir se estava tudo bem... Temia que as vidraças não resistissem ao vendaval e se quebrassem. Para piorar, parecia cair granizo. Pensando então em ficar com as mãos abertas pressionando os vidros para que eles não vibrassem e não se quebrassem com o choque das pedrinhas de gelo, cheguei bem próximo à janela e aproveitei para ver melhor o que estava se passando lá fora. Tomei um susto inominável quando me dei conta de que não havia lá fora nada além que duas espécies de tornados, – seriam tufões? furacões?... sei lá que diabos era aquilo! - um vermelho e um absolutamente preto e ambos pareciam varrer a cidade lá longe. Gelei. Não conseguia me mexer, entretanto consegui balbuciar para os outros um relato da cena que se passava lá fora.

De repente a energia acabou. Ficamos todos no escuro vendo pela janela o mundo ser dizimado. O tornado vermelho tinha desaparecido. Tive a impressão de que ele tinha se fundido no preto, que estava lá, enorme, e parecia ter vida, vontade própria. Passou bem na frente da minha janela e ficou ali parado, como se olhasse para nós lá dentro. Ficamos estáticos! A esse momento eu estava no chão, ajoelhada em frente ao menino sentado no sofá. Com a cabeça sobre as suas pernas, tentando não ver o que era óbvio, o menino tentava me consolar fazendo cafuné nos meus cabelos.

Minha televisão começou a ligar e a desligar. Achei que fosse a força eletromagnética liberada por aquele troço parado na frente da minha janela e me arrastei pelo chão para desligar a tomada. Consegui fazê-lo, mas não resultou em nada. Mesmo em meio àquele pavor absurdo, ainda tive a capacidade de ter um pensamento absolutamente pequeno e cretino: “Porra! A televisão não tem nem seis meses de comprada e já vai queimar... Caralho!”. Puta de raiva diante dessa constatação que ofendia meu bolso proletário olhei para a janela e vi o desgraçado do menino abrindo a trava que, há poucos minutos atrás, nós havíamos custado para fechar.

Embora à essa altura eu já estivesse completamente tomada de ódio, sussurrei para que a peste do menino parasse com aquilo – tinha medo que gritando o tornado negro me notasse. Essa minha advertência foi inútil porque o menino parecia hipnotizado por aquela coisa preta que, naquele instante, sabe-se lá por que razão, tinha acabado de sair da frente da janela indo para a esquerda. Entretanto, para o azar de todos nós que estávamos ali, o maldito pivete não só tinha destravado a janela como também a abriu, fazendo com que a vidraça toda estilhaçasse tal como um Marinex ou como um pára-brisa que se transforma em inúmeros pedacinhos quadrados de vidro que se espalham por tudo quanto é canto. Aí me desesperei e dei um grito de ódio: “- Nãããããããããããããããããão!” O Frank teve literalmente que me segurar para eu não esganar aquela criança dos infernos, mas aí tudo já estava perdido.

Com toda aquela confusão, o tornado parece ter percebido que naquele apartamento ainda havia vida e voltou imediatamente para acabar com tudo. Eu sentia então o maior medo que uma pessoa pode imaginar sentir. Suava frio e só conseguia olhar para aquela coisa ali, negra, na minha frente. Mas foi também exatamente nesse momento crucial e decisivo que meu telefone tocou e era a minha irmã me tirando bruscamente do pesadelo que, de longe, foi o mais pavoroso de toda a minha vida até então.

Isso tudo foi na quarta-feira. Até agora não consigo olhar para a janela em paz e ainda tenho a quase certeza de que deveria me referir ao tornado em maiúsculas...

domingo, 9 de novembro de 2008

Bom Humor de Cu é Rola

A cirurgia de emergência de retirada da vesícula biliar há duas semanas atrás. Na semana passada, a vitória de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos como saída para a crise mundial e a mesa que a Igreja Universal, aqui na Olegário Maciel, resolveu instalar em plena rua para chegar mais diretamente aos futuros fiéis – uma estratégia de marketing direto, claro. Anteontem, a briga de dois alunos em sala de aula e a chegada da polícia para resolver a questão. Como eu posso ser capaz de dizer que nada de novo acontece na minha vida?

Não é que as coisas não aconteçam, né... Sou eu que, cada vez mais, estou mais indiferente com relação a tudo que está à minha volta... Nada tem graça, nada me desperta, nada me move ou me toca fundo o suficiente para gerar um princípio de ação em mim. Os anos passam, os meses voam e as horas correm no compasso dos compromissos cotidianos, tão sem sentido, tão presas à rotina que nem percebo mais o tempo em mim. De repente, em meio ao silêncio que antecede o dormir, cai sobre mim a plena consciência da minha condição: um ser vivo que morre a cada segundo sem saber ao certo o que acontece à sua volta, não por falta de informações ou falta de tempo, mas por absoluta falta de vontade de se envolver com a vida, com as pessoas, com qualquer coisa.

Faz um bom tempo que sei disso. Não é novidade para mim nada do que sinto e percebo com relação a mim mesma. Aliás, se me abstenho das outras pessoas e do que elas podem me trazer de bom ou de ruim, ao contrário, não me poupo de mim mesma. Inclusive acho isso péssimo! Seria bem melhor se eu não me conhecesse e não me desse conta do que se passa em mim. Seria ótimo gastar as minhas horas apenas preocupada com coisas e com pessoas, e não comigo, obviamente. Invejo a quase todos nesse sentido... Mas infelizmente, como ia dizendo, não é o que ocorre: sou plenamente consciente de meus atos, de meus limites e de minhas dimensões, tão consciente que é patente para mim a minha atual existência ensimesmada.

Estou envelhecendo e deixando de ser tudo o que eu era. Cada dia que passa sou mais reacionária e quero mais que revoluções se explodam. Cada dia a mais de vida faz com que eu me perceba mais insensível, mais indiferente às mazelas do mundo, ao sofrimento das pessoas; me coloco tão de fora dessa situação que sempre encontro respostas racionais para justificar o fracasso alheio, a fome, a miséria, as tragédias, tudo. A cada dia fica mais claro para mim como me irritam esses jovens idiotas e suas ideologias que pretendem salvar o mundo. Não viram nada, não viveram nada, falam do ponto de vista de quem só imagina e, mesmo assim, têm a petulância de se colocarem no lugar da verdade. Que vontade de pegar e dar uma boa surra e mostrar a esses cretinos que a vida e que os problemas são um pouquinho maiores do que Paulo Freire e Karl Marx diziam... Que infortúnio, Senhor!

Greenpeace, WWF, Amigos da Escola, PT, pedagogos, Xuxa, Teleton, Bono Vox, Criança Esperança... Que desgraça pelada, meu Deus! Que falta de paciência dos infernos!

E que praga dos diabos ter que ficar fingindo educação e boa vontade com gente que eu queria mais que se fudesse! Que castigo dos Céus suportar gente mais fingida que eu e que se faz de simpática, que te dá “bom dia” querendo que você se foda e que te pergunta “como vai?” por pura obrigação... É uma merda mole essa vida, não é não?

É por isso que de certa forma eu entendo a minha apatia que perdura há anos... Afinal de contas, vale a pena dar murro em ponta de faca? Faz sentido (e é socialmente admitido) fazer apenas aquilo em que a gente acredita de verdade, agir somente de acordo com nossas vontades verdadeiras e ser uma criatura 100% do tempo honesta consigo mesma e com as pessoas à sua volta? Eu sei que nem quando eu era uma adolescente idiota, cheia de idéias inovadoras e sede de mudanças eu pensava assim. Agora, velha e reacionária é que eu não vou idealizar algo assim mesmo. Que se dane!

Não quero me reintegrar com o mundo e nem faço questão de encontrar novos prazeres a cada momento. Os poucos que tenho me bastam. Não tenho de ser igual a ninguém e me orgulho muito de detestar teatro e de gostar enlouquecidamente de música clássica e de coisas que quase ninguém gosta. Estou na contra-mão mesmo e pronto! É isto o que eu sou! Muito embora me preocupe em certa medida esse meu afastamento do “mainstream” e o fato de isto ser proposital ou inconsciente, quando consigo localizar e falar sobre isto, sei que é fruto de escolhas. Aliás, como tudo nesta vida.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ctrl Alt Del

Há uma semana sem fumar. Em dieta desde que me entendo por gente. Que merda de vida é essa?

Se não estou em dieta sinto culpa. Aliás, quando não me sinto culpada? Me ensinaram cedo a me sentir mal pelo que sou – como se isso resolvesse alguma coisa... Então se eu fumo também sinto culpa: dá mau hálito, deixa cheiro ruim nas roupas, nos cabelos, incomoda as pessoas ao meu redor, adoece... Essa semana uma profissional gabaritadíssima da fonoaudiologia afirmou categoricamente: se você fuma, terá câncer de laringe. Fatalista mesmo a moça, não?

Ai ai, viu... Essa perseguição aos fumantes já me deu nos nervos! Só parei de fumar porque farei uma cirurgia daqui 3 meses, senão, pau no cu de todo mundo! E pau no meu cu também por me sentir culpada por fumar... Aliás, pau no meu cu por me sentir culpada por tudo o que eu sou, por tudo o que eu penso e por tudo o que eu faço. Pros diabos com essa merda toda!

Me lembro de quando fazia terapia e dizia a mim mesma que minha angústia de ser o que sou e quem sou só teria fim se eu pudesse ser reiniciada como um computador. É, porque o computador quando dá pau a gente reinicia e, se reiniciando não resolve, formatamos. Eu sofria por não poder ser reiniciada e muito menos formatada. Sofria mais ainda por ter consciência de que o ser humano, mesmo quando se força a uma auto-formatação, ainda assim guarda marcas do que passou, ou seja, não é inteiramente apagado e reescrito.

Corpo e mente no ser humano trabalham em tão profunda união que um determina o outro. Foi isso que custei a perceber: pensar, sentir e ser são uma única coisa. Eu me tornei o que fizeram de mim e eu penso dentro dos meus limites, físicos e mentais: um corpo obeso é habitado por uma mente obesa, que pensa obesamente e determina uma existência obesa. Daí, me forçar a uma auto-formatação hoje só mudará meu corpo, certo? Mas meu corpo formatado mudará minha mente ou o que está gravado nela assim ficará para sempre?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Otimismo - Tomo I


“Que as coisas não mudem”.
“Que as coisas não mudem”.
“Que as coisas não mudem”.


É o mantra que venho entoando nos últimos dias...

Depois de semanas conturbadas, uma temporada de paz e de bons resultados após esforços verdadeiros é bem vinda e muito merecida.

Sim, tenho aprendido a ver o lado bom das coisas ruins. Aliás, há tempos que venho me dando conta disso. Saquei que as coisas que são problemáticas para mim não vão mudar nunca se não partirem de iniciativas minhas. E tenho tomado várias iniciativas ultimamente. Poderia listá-las, mas acho que não vem ao caso.

Mas sobre essa idéia de as coisas não mudarem, sei que é um pensamento vazio. É apenas uma forte vontade que seria perfeita se se tornasse realidade. Mas nada fica da mesma forma, imutável, eternamente. Heráclito já tinha avisado isso.

Ai ai... Me vanglorio de estar aprendendo a valorizar as pequenas coisas mas quando enfim dou um passo rumo ao otimismo, eu mesma me saboto... Por que diabos tenho que pensar sempre em termos de conflito?

Vou continuar entoando meu mantra e tomando as medidas corretas. Vou tentar esquecer de que o contrário do que o pedido clama pode também se realizar... Vou esquecer!!! Vou me embebedar de um otimismo cego... Quem sabe assim aproveito melhor a vida?

domingo, 31 de agosto de 2008

O Agir Diplomático

Vai além das minhas capacidades físicas conseguir esconder ou mascarar algo que eu esteja sentindo ou pensando. Se não gosto de alguma coisa, basta olhar para a minha cara para perceber claramente isto. Se gosto, é a mesma coisa. O que penso, de bom ou de ruim, acerca de alguém ou de alguma coisa, também é facilmente notado no meu semblante. Sempre foi assim.

Sob o meu ponto de vista, se por um lado isso é uma virtude – prezar pela verdade é uma bandeira que carrego há tempos -, por outro, na maioria das vezes, complica e muito a minha relação com o mundo lá fora e com as pessoas que o habitam.

Uma das primeiras coisas que aprendi enquanto ser humano inserido numa sociedade é que as pessoas mentem. Isso me desagradou muito porque eu achava que podia confiar naquilo que as pessoas diziam sentir e pensar. Cedo cedo me dei conta de que deveria sempre manter o pé atrás com todos, mas decidi que eu mesma não mentiria – só naquelas incorrigíveis situações acerca de juízos de gosto, e mesmo assim para agradar a pessoas que eu estimasse de verdade.

Entretanto, com o passar dos anos e sob o peso de experiências não muito agradáveis, me dei conta de que a regra de sobrevivência nesse mundo é o comportamento diplomático. Agir com astúcia e habilidade em todos os âmbitos da vida é o que faz de alguém uma pessoa política, que sabe lidar com todos os tipos de situações e pessoas. Isso não é tarefa fácil - é óbvio -, principalmente quando, para agir assim, somos socialmente obrigados a passar por cima daquilo que o nosso instinto clama de forma fervorosa: matar, estrangular, trucidar, humilhar, espancar, etc. Mas, paradoxalmente, me parece mais complicado ainda, já que somos pessoas civilizadas, superar tendências que não são advindas de nossa instância instintual, mas de nosso lado civilizado, cultural. É quase sobre-humano resistir à tentação de usar de nossa condição de poder para resolver um dilema desse tipo, ou seja, usar do nosso poder para calar alguém ou solucionar uma situação de conflito. Nesse último caso, quando as influências culturais se sobrepõem às naturais, é que é preciso um maior cuidado quanto à decisão sobre o que fazer.

É muito mais fácil – e mais simples, friso - mandar dar uma boa surra numa pessoa que se mete em nosso caminho e que nos causa problemas do que lidar com essa situação de uma forma política, tentando encontrar soluções dentro de um universo de possibilidades éticas. Quando digo que espancar é o mais fácil não estou dizendo que isto seria o correto, mas que, exatamente, seria a ação mais simples e eficaz, já que machucaria a pessoa e nos traria o prazer da vitória. Entretanto, já que a maioria das pessoas não se entrega a esse lado animal – e ainda bem! – é preciso optar pela segunda via, ou seja, agir eticamente dado que somos seres racionais. Mas é claro que agir dessa forma – eticamente - implica em não utilizar nada além que nossa capacidade pensante para solucionar a questão. Assim, não podemos de forma nenhuma fazer uso da nossa condição de poder para superar um dilema ou conflito.

Colocada dessa forma a questão parece de fácil solução, mas não é bem assim. Primeiro porque agir eticamente não é tarefa fácil, já que a ética prescinde de valores morais e estes não são universais. Segundo porque, mesmo possuindo valores morais e reconhecendo o peso das decisões éticas, tendemos a ceder a pequenas exceções comportamentais, principalmente ao que se refere ao já mencionado uso do poder.

Que o poder corrompe isso não é novidade para ninguém. Mas é justamente porque ele traz em si essa capacidade de corromper que devemos estar sempre em estado de alerta. Superar o peso do poder sobre nossos ombros só é possível via pensamento racional, isto é, uma análise fria e direta da situação em questão e seus contornos, de modo a poder encontrar uma saída que salvaguarde ambos os lados, o nosso lado e o lado oposto do conflito. É o meio-termo, famoso e velho conhecido de manuais de ética e doutrinas comportamentais.

Mas mesmo este meio-termo, tão apregoado e admirado por todos, é ainda uma saída complicada. Embora pareça simples, ao reconhecê-lo como facilmente acessível ignoramos o fato de que, sempre, invariavelmente, queremos sair por cima em qualquer situação. E aí, não creio que se trate apenas de um sintoma social, a mania humana de querer vencer sempre. Às vezes esta coisa que estar por cima a todo o tempo me soa como uma coisa de horda, bem tribal mesmo, animalesca, a idéia de que numa batalha sempre há um vencedor e um perdedor.

Se nos entregamos a esse impulso, todo o esforço até aqui foi perdido. O que podemos fazer para satisfazer todas as partes é, numa situação de conflito em que ocupamos a posição mais privilegiada - a posição de poder - e que tendemos a resolver a questão de uma forma não-ética – arbitrária, autoritária, totalitária -, não devemos de forma alguma utilizar estes meios para superar a questão. Mas, se ocupando esta posição privilegiada conseguirmos encontrar o tal meio-termo que dá fim ao conflito, iremos satisfazer todos os lados, todos os âmbitos e todos os aspectos que envolvem tal questão. Sairemos felizes eu, a pessoa que me desafia, as regras anti-violência da civilização humana e também meu instinto de querer estar sempre por cima. Sim, porque numa condição como esta, só o uso de nossa capacidade racional poderá nos salvar.